"DEVIR" POR LUCIANO FREITAS

terça-feira, 14 de julho de 2015

“DEVIR”, de Ewertton Nunes – Dançando Almodóvar no Espaço Liso

Por Luciano Freitas*
“Tudo flui e nada permanece, tudo dá forma e nada permanece fixo.
Você não pode pisar duas vezes no mesmo rio,
pois outras águas e ainda outras, vão fluir.”
(Heráclito de Éfeso, 5.000 a.C.)

Logo nos primeiros instantes do espetáculo "Devir", o espectador pode ter a estranha sensação de ter sido subitamente, sem nenhum aviso, transportado para o interior de um filme de cinema: Após a exibição dos créditos de abertura, com a imortal canção 'Ne me quite pas' como música de fundo, a cena inicial de um notório filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar se desenrola diante de nossos olhos. Parcialmente privados de nossa própria identidade coletiva pela escuridão da platéia, nos tornamos a voz autoritária que ordena os passos minuciosamente coordenados de um joguete erótico.


A diferença fundamental aqui é que o olhar não está mais prisioneiro da câmera. Liberado dos planos, recortes e re-enquadramentos, típicos da linguagem cinematográfica, o espectador pode olhar por quanto tempo quiser, para o que quiser - ou desviar o olhar, se puder...  E há muito que olhar. Os corpos dos atores dançam dramas curtos e intensos, movem-se atleticamente por toda a extensão do palco, espreitam-se, tocam-se, escapam, perseguem-se, colidem, submetidos a uma força tão irrefutável quanto a da própria lei da gravidade: a lei do desejo. Nem sempre é possível definir qual personagem se sujeita a quem. Até mesmo a submissão, nesta frenética correnteza de psicodramas, pode ser paradoxalmente imposta ao outro.

            Como nos filmes de Almodóvar, teatro e cinema se permeiam, comunicam-se. Figurino, iluminação e elementos de cena se misturam à projeção de imagens da própria peça em um telão no fundo do palco. Duas câmeras fixas e uma móvel registram as cenas em diversos ângulos, projetam metalinguisticamente as cenas, ora devolvendo as tramas cinematográficas ao seu habitat natural - a tela grande - ora projetando as expressões das personagens em monumentais recortes de luz e sombra, ora compondo um meta-cenário, ao destacar elementos críticos da ação e aproximá-los.  Embutido no corpo do espetáculo, o aparato audiovisual opera simultaneamente no nível da vigilância eletrônica e do voyeurismo. Pausas para respirar são promovidas pelo silêncio e total escuridão no curto intervalo que antecede cada uma das músicas-tema. De brinde, há um desconcertante momento de "alívio cômico", onde a temática andrógina, típica do diretor espanhol, se encontra da maneira mais improvável possível com a irreverência nordestina de Jackson do Pandeiro!

Ao final do espetáculo, os atores convidam o público para um bate-papo (agora já estão todos íntimos... público e atores devassaram-se uns aos outros...). Ewertton Nunes - inquieto escritor-diretor-ator-coreógrafo-dançarino sergipano - ladeado pelos versáteis membros da Espaço Liso Cia. de Dança, compartilha o processo criativo, relatos, curiosidades, discutem abertamente as ressonâncias do evento. Uma deliciosa sobremesa para o espírito que acaba de banquetear-se.

*Luciano Freitas é Servidor Público da Educação
e aluno do curso de Comunicação Social/Audiovisual da UFS






ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO DA ESPAÇO LISO: 
Ewertton Nunes
               

                  

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